quinta-feira, 26 de junho de 2008

Mudasti


Tenho pena e não respondo.
Mas não tenho culpa enfim
De que em mim não correspondo
Ao outro que amaste em mim.

Cada um é muita gente.
Para mim sou quem me penso,
Para outros --- cada um sente
O que julga, e é um erro imenso.

Ah, deixem-me sossegar.
Não me sonhem nem me outrem.
Se eu não me quero encontrar,
Quererei que outros me encontrem?

Fernando Pessoa

domingo, 22 de junho de 2008

Desabafo libertador

Momentos que são só nossos e por isso apenas compreendidos por quem de respeito. Horas insignificantes para o Mundo, pequenos aromas e toques, gestos e palavras... Desabafos de alegria, amor, saúde, família e coisas que achamos que ninguém faz, só nós.

Todos aqueles momentos que subvalorizamos, mas que a mais ninguém interessam. São tempos incertos que duram uma vida, que nos passam ao lado no dia-a-dia mas que são tão pessoais que podem ser elevados misteriosamente a um cantinho da nossa alma não partilhada. Comunicação... às vezes difícil de exteriorizar porque temos medo das interpretações, quando deviríamos saber, até connosco mesmo, que o sabor da vida se encontra nestes instantes. Tudo faz mais sentido e até o dormir se torna, novamente, agradável. O bom descanso do tico e do teco traz o bom descanso de um corpo pesado e cansado de si mesmo.

Pequenas convicções e orgulhos que caem por terra quando se ama sem a necessidade de dizer "amo-te sempre e independentemente do que digam de ti!".

Na verdade criamos uma imagem da pessoa e, quando ela muda, para voltar ao que era ou a uma nova renovação, nada melhor do que ter coragem e entrar numa saudavel discussão de temas diversos e ressalvas do que somos, como pensamos, do que sentimos, do que mudou em nós! Agradeço o facto de estar sempre a mudar as minhas opiniões e não ficar estagnada em coisas inuteis, tão facilmente resolvidas com um carinho ou olhar.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Fernando Pessoa - Liberdade (no dia de Camões)

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não fazer !
Ler é maçada,
Estudar é nada.
Sol doira
Sem literatura
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como o tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D.Sebastião,
Quer venha ou não !

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

Mais que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

_______

E porque as ditaduras e obrigações de ser assim ou assado já acabaram, e porque a liberdade em 2008 está pior do que antes do 25 de Abril, o dia de Camões também serve para marcar a história da condição humana... pobres à espera do pão, quer venha, ou não!

terça-feira, 3 de junho de 2008

Onde estarás?

Tudo o que faço me lembra de ti. Estar com a família, um simples doce que gostavas, tranças no cabelo (que nunca mais fiz)... Ainda te amo muito Zuzu. As tuas mãos finas e macias, o teu andar de ladinho, a madeixa de cabelo branco e sempre despenteado.
E são textos escondidos que nunca ninguém leu. São desejos que partas ou que assuma que não voltas mais. São andares em passo de corrida para fugir das tuas fotos. São palavras tão estúpidas para dizer tanto. Fazes-me falta sabias? Como é que me puderam fazer isto? Eu não sirvo só para os outros, não quero ser só tua, quero sonhar contigo, mas não dias a fio.
E a música, lembras-te? Quando ouvia-mos juntas os cds, quando te falava de monstros nas sombras das persianas, quando me deitava na tua barriga, e tiravas fotos de mim como ninguém. Eras analfabeta e tão inteligente. Fazias hoje 79 anos, que estaria eu a fazer contigo hoje? Será que tinha-mos ido comer croissants à foz? Acho que deveria-mos ter ido às compras para o almoço gigante de sábado. E lá ia eu dar-te meias e camisolas e tu ralhar-me para por a cara bonita, cara essa que dizias linda, sempre tão bem arranjada. Meu Deus avó... já são 3 anos, foram três as partidas, mas são mais que três os momentos diários em que penso em ti.
Eu nunca te vou deixar esquecida... Parabéns Zuzu linda, que estejas num lugar de luz.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Camisola rasgada

Somos todos idiotas à procura de heróis
Envoltos em romances e utopias do passado
Remexendo em sentimentos que não existem
Procurando nas listas quem possa estender a mão

Somos todos analfabetos no que toca a compreender
Alvos de censura e hierarquias tiranas
Queremos apenas ser felizes
Mas rasgamos os livros em branco

Seremos história, mas não memória
Somos cartas de meretrizes em desespero
Esperamos tragédias
Vivemos de televisores

Tentamos a glória
Pequenos momentos de goma
Ultrapassa a nossa capacidade
Protagonistas infelizes

É sempre a vez do outro
É sempre o vizinho à mesma hora
São fases e insultos
Relógios usados tirados em máquinas